MEDOS E MITOS EM ANESTESIA VETERINÁRIA
Sempre que nos deparamos com a possibilidade de um de nós ou de nossos entes queridos serem anestesiados, podemos quase sentir os dedos frios do medo correndo de leve ao longo da nossa espinha.
Surgem na memória histórias escabrosas que invariavelmente terminam em tragédia. Os fármacos anestésicos assumem proporções de venenos terríveis que, instilados em nossa corrente sanguínea, acabariam por nos conduzir ao reino de Deus (se, é claro, tivermos sido bons meninos ou meninas até o momento da cirurgia).
Medos que a moderna técnica anestésica prova infundados. Muito embora não disponhamos dos recursos disponíveis nos grandes centros cirúrgicos humanos, seja em virtude do custo, seja pela inadaptabilidade do equipamento à morfologia do paciente animal, nossa prática vem se aperfeiçoando a cada dia. Eletrocardiógrafos, oxímetros de pulso, localizadores de nervos periféricos e sobretudo, a presença do veterinário especialista em anestesiologia conferiram ao ato cirúrgico-anestésico segurança impensável décadas atrás.
Diante das dúvidas que muitas vezes assaltam o proprietário que conduz seu animal à cirurgia, selecionamos algumas perguntas que talvez sejam comuns a todos:
1. Por que o jejum é importante?
O paciente de estômago cheio, ao ser anestesiado, pode vomitar. Se o evento acontecer antes da intubação endotraqueal, há o risco de aspiração do vômito, e conseqüente pneumonia, de difícil tratamento. Outra possibilidade é o refluxo, onde o conteúdo do estômago “escorre” pelo esôfago do paciente anestesiado, sem que seja possível sua detecção. O contato desta secreção extremamente ácida com a mucosa do esôfago (que não está preparada para ela) pode causar lesões cujas conseqüências só serão percebidas anos mais tarde (particularmente em gatos). Assim, sempre que possível, certifique-se que o seu animal está realmente em jejum antes da cirurgia.
b) Para que serve o tranqüilizante que o meu animal toma antes da anestesia propriamente dita?
Além de, obviamente, tornar o animal mais fácil de lidar, algumas drogas tranqüilizantes exercem ação extremamente benéfica sobre a função cardíaca, tornando a anestesia mais segura. Também reduzem a dose do anestésico geral e ainda contribuem para um despertar mais tranqüilo.
2. Precisa mesmo colocar esse tubo na garganta do meu gato?
Sim, tanto do gato quanto do cachorro. O tubo endotraqueal impede que secreções indesejáveis atinjam os pulmões, assegura que a via respiratória estará sempre desimpedida e possibilita assistência ventilatória no caso de parada ou insuficiência respiratória. Lesões mais sérias associadas à intubação endotraqueal são muito raras. Sendo assim, a relação custo-benefício do uso do traqueotubo é muito vantajosa.
3. Meu cachorrinho vai tomar pouca anestesia, já que a cirurgia é pequena?
Não existe pouca ou muita anestesia, existe a anestesia correta e suficiente. Para caracterizar anestesia é necessário que haja inconsciência, analgesia (ausência de dor), proteção neuro-vegetativa (ausência de resposta, mesmo involuntária, do organismo frente ao estímulo doloroso) e relaxamento muscular. Se utilizarmos um fármaco para produção de cada um destes efeitos, seus efeitos depressores combinados serão bem menores se os comparamos ao uso único de anestésico geral. Lembre-se que anestésico geral produz tão somente inconsciência. Se o utilizamos para abolir respostas voluntárias ou não ao estímulo doloroso, o fazemos à custa de doses muito altas, potencialmente perigosas para o paciente.
4. Meu gatinho pode morrer de choque por conta dos anestésicos?
Choque anafilático é, grosso modo, uma resposta alérgica aguda, muito grave, e freqüentemente imprevisível a um determinado agente. De todos os fármacos atualmente usados em anestesia, o mais incriminado na produção de anafilaxia é o aparentemente inocente anestésico local. Felizmente, a possibilidade de ocorrência é muito pequena (se não fosse, ninguém pediria uma anestesia quando vai ao dentista, não é mesmo?). Concluindo, o choque que pode matar seu gato é mais provável de acontecer se ele enfiar o focinho na tomada.
5. Eu quero que o Rex tome anestesia inalatória porque ela é mais segura!
Ledo engano. A única vantagem da anestesia inalatória sobre a anestesia total intravenosa (obviamente, referimo-nos às modernas técnicas anestésicas) é que o anestésico pode ser administrado de maneira contínua sem o uso de aparelhagem sofisticada (afirmativa que pode estar com os dias contados, com a popularização e barateamento do custo de bombas de infusão e outros artefatos). Seguro é o anestesista. Drogas potentes em mãos erradas podem ser tão devastadoras quanto o uso de dinheiro público por políticos desonestos.
6. Preciso dar analgésicos depois da cirurgia?
Sim. O conforto deve ser assegurado ao paciente durante o pós-operatório. Até a mesmo a recuperação do ato cirúrgico em si é favorecida. Na dúvida, dê o analgésico.
7. O Rex pode comer quando chegar em casa?
Não só pode como deve. Só não pode é comer muito de uma só vez, ou alimentos com os quais não está habituado.
8. Por que o Fido tomou anestesia peridural se já ia mesmo receber anestésico geral?
Porque a anestesia epidural (ou peridural, aquela feita na coluna), além de permitir que o paciente fique em estado de sedação profunda (inconsciência com manutenção de alguns reflexos protetores), promove ainda um conforto sem igual no pós operatório, pois a morfina, quando administrada por essa via, tem ação analgésica de oito a doze horas. O único inconveniente da anestesia epidural é que pode haver paralisia transitória das patas traseiras. E enquanto elas estiverem relaxadas, o anima não deve ser transportado. Dependendo do anestésico local utilizado e de sua concentração, a paralisia (bloqueio motor) dura em torno de 4 horas.
i) Não é exagero dar anestesia geral para a Mel só por causa de uma limpeza de tártaro?
Não. A limpeza de cálculo dentário, para ser bem feita, necessita que o paciente fique totalmente imóvel. O ultrassom, aparelho que remove os cálculos, causa um certo incômodo no paciente acordado, e ainda lança água na boca do paciente, para resfriar as ponteiras. Só um hipnotizador conseguiria convencer um cachorro a abrir a boca para um estranho colocar dentro dela um troço comprido, que zumbe, vibra e esguicha água. Assim, a anestesia geral, ainda que muito superficial, é necessária.
E finalmente uma indagação que já ouvimos, e apesar da resposta ser óbvia, é de difícil elaboração: meu animal, meu filho, meu melhor amigo pode morrer? Sim, pode. Em qualquer circunstância, seja jovem, seja velho, seja saudável, seja portador de doença grave. Da mesma forma que todos nós podemos, na rua, no clube, em casa.
Para morrer, basta estar vivo. Mesmo com todos os avanços, a prática anestésica ainda carrega consigo um percentual de imponderável, fruto de nossa própria ignorância ou impossibilidade de acesso a certos avanços técnicos. A verdade é que nunca a humanidade vencerá a morte. Na opinião de muitos, nem deveria. A luta deve ser por uma vida mais saudável e principalmente mais feliz. E se nessa busca precisamos lançar mão de um recurso cirúrgico devemos fazê-lo, ainda mais diante da possibilidade cada vez menor de insucesso. Já foi dito que quem vive com medo vive pela metade.
Pela metade principalmente porque escusa-se de lutar por seus sonhos, por mais loucos que sejam. E ainda porque prefere a convivência com uma limitação física que pode ser eventualmente séria, ao invés de enfrentar os riscos ainda que remotos de uma opção terapêutica que poderia remediá-la.
FERNANDO AUGUSTO FERREIRA VIEIRA
RESIDÊNCIA EM ANESTESIOLOGIA VETERINÁRIA – UNESP – BOTUCATU
MESTRE EM CIRURGIA VETERINÁRIA – UNESP - BOTUCATU
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